Eu não quero ficar dependente de remédios.

Por Juliana Parada, psiquiatra ativista pela saúde mental materna, amamentação e humanização do nascer e morrer. Co-fundadora e RT do Sentir Mulher,

“Mas Dra. Ju, Eu não quero ficar igual minha mãe. Eu sou contra usar remédios”.

Bom, eu sou contra viver doente e sofrendo 🙄.

Vamos lá: 1 A maioria dos tratamentos psiquiátricos não causa dependência! Exceções: os “faixa preta”.

2 A maioria das DOENÇAS PSIQUIÁTRICAS tendem a ser CRÔNICAS e RECORRENTES. Ou seja: prolongadas, duradouras e com altos índices de recaídas.

3 Quando um episódio não é tratado ou não é adequadamente tratado A CHANCE DE CRONIFICAR ou ter RECAÍDAS é SEMPRE MUITO MAIOR.

4 Cada episódio não tratado danifica o cérebro, de modo que ele fica “fragilizado” para se recuperar (o tratamento pode se tornar mais difícil) ou ter mais recaídas.

5 Os PROTOCOLOS de tratamentos psiquiátricos são PROLONGADOS – no mínimo 6 meses a 1 ano – ou até mais, dependendo do caso.

6Em muitos casos existe, SIM, a indicação para TRATAMENTOS CONTÍNUOS. Isso nunca é uma regra para a pessoa que começa a se tratar no primeiro episódio. Mas é indicado dependendo da doença ou se ela teve 3 episódios ou mais. Ou, ainda, quando ela coloca realmente em prática as medidas farmacológicas e ainda assim não consegue se manter estável sem os medicamentos. Já ouviram falar sobre isso para diabetes, pressão alta e outras doenças crônicas? Algum preconceito nestes casos?

7Concluindo: a questão não é o tratamento, mas sim AS CARACTERÍSTICAS DAS DOENÇAS. Capitche?

Então, mesmo com o uso de remédios temporariamente, você PODE e DEVE tomar as rédeas da sua vida. Cuidar da alimentação, do sono, do corpo, aumentará muito as chances de ficar bem quando chegar a hora da retirada do medicamento.

Pode OU NÃO depositar no remédio a responsabilidade pelo seu bem-estar. Pode olhar para o remédio como um problema OU UMA SOLUÇÃO temporária. Pode escolher um médico que te estimule a se cuidar de várias formas, que te oriente sobre o tempo estimado do tto, que te escute e procure adequar os protocolos aos seus valores e perspectivas, dentro do que for possível clinicamente.

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